sábado, 1 de dezembro de 2018
Carregue apenas o necessário e importante
Certa vez um viajante deparou com um rio que seria necessário atravessar. Como não havia ponte, ele mesmo cortou troncos de árvores e construiu uma balsa perfeita. Chegando à outra margem, sentiu-se tão apegado à balsa que não teve coragem de abandoná-la. E, assim, carregando-a nos ombros, reiniciou a travessia do bosque. A balsa pesava-lhe sobre os ombros. A balsa que antes tinha sido uma solução, agora se transformara num problema.
Muitas vezes a solução de ontem torna-se o problema de hoje.
sexta-feira, 31 de agosto de 2018
CATADOR DE LINDEZAS
Eu venho de lá, onde o bem é maior.De onde a maldade seca, não brota.De onde é sol, mesmo em dia de chuva e a chuva chega como benção.Lá sempre tem uma asa, um abrigo para proteger do vento e das tempestades. Eu venho de um lugar que tem cheiro de mato, água de rio logo ali e passarinho em todas as estações. Eu venho de um lugar em que se divide o pão, se divide a dor e se multiplica o amor. Eu venho de um lugar onde quem parte fica para sempre, porque só deixou boas lembranças. Eu venho de um lugar onde criança é anjo, jovem é esperança e os mais velhos são confiança e sabedoria. Eu venho de um lugar onde irmão é laço de amor e amigo é sempre abraço.Onde o lar acolhe para sempre, como o coração de mãe. Eu venho de um lugar que é luz mesmo em noite escura. Que é paz, fé e carinho. Eu venho de lá e não estou sozinho, "SOU CATADOR DE LINDEZAS", sobrevivo de encantamento, me alimento do que é bom, do bem. Procuro bonitezas e bem-querer, sobrevivo do que tem clareza e só busco o que aprendi a gostar. Não esqueço de onde venho e vou sempre querer voltar. Meu lugar se sustenta do bem que encontro pelo caminho, junto a maços de alfazema e alecrim. Assim, sou como passarinho carregando a bagagem de bondade, catando gravetos de cheiro, para esquentar e sustentar o ninho... Talvez a vida tenha feito você acreditar que este lugar não existe. Te digo: existe sim, é fácil encontrar. Silencie, respire, desarme-se, perceba, é pertinho. Este lugar que pulsa amor é dentro da gente, é essência, está em cada um de nós. Basta a gente buscar.
(Rita Maidana).
quarta-feira, 29 de agosto de 2018
A terceira fase da vida
De repente tudo vai ficando tão simples que assusta.
A gente vai perdendo as necessidades, vai reduzindo a bagagem.
As opiniões dos outros, são realmente dos outros, e mesmo que sejam sobre nós não tem importância. Vamos abrindo mão das certezas, pois já não temos certeza de nada.
E, isso não faz a menor falta. Paramos de julgar, pois já não existe certo ou errado e sim a vida que cada um escolheu experimentar.
Por fim entendemos que tudo o que importa é ter paz e sossego, é viver sem medo, é fazer o que alegra o coração naquele momento. E só.
Mário Quintana
De repente tudo vai ficando tão simples que assusta.
A gente vai perdendo as necessidades, vai reduzindo a bagagem.
As opiniões dos outros, são realmente dos outros, e mesmo que sejam sobre nós não tem importância. Vamos abrindo mão das certezas, pois já não temos certeza de nada.
E, isso não faz a menor falta. Paramos de julgar, pois já não existe certo ou errado e sim a vida que cada um escolheu experimentar.
Por fim entendemos que tudo o que importa é ter paz e sossego, é viver sem medo, é fazer o que alegra o coração naquele momento. E só.
Mário Quintana
terça-feira, 31 de julho de 2018
Maria e Giuseppe –
Da Itália para o Brasil
Versão atualizada
em julho/2018
Notando o interesse da atual geração de
Manzoli’s pelas histórias de ancestralidade da família e observando, também,
que a fila anda, gerações se sucedem e as memórias se perdem e considerando,
ainda, que pertencemos à uma geração em extinção, registro aqui algumas
memórias que poderão interessar à algum Manzoli ou descendente.
Por volta do ano de 1680 nasceu em Libiola – fração da (Comune di Sestri
Levante, Liguria It) Sante Manzoli.
Sante casou-se com Bárbara Zapparolli Manzoli e tiveram um filho chamado
Isidoro Manzoli.
Isidoro e sua esposa tiveram cinco filhos. O primogênito chamava-se
Giacomo Manzoli.
Giacomo e sua esposa tiveram cinco filhos O segundo chamava-se Domenico
Manzoli (1772 a 1841).
Domenico casou-se com Ângela Martinelli Manzoli e tiveram cinco filhos.
O terceiro chamava-se Carlo Manzoli (1805).
Carlo casou-se com Cecilia Benfatti Manzoli e tiveram dez filhos. O
primogênito chamava-se Giuliano Martino Manzoli (1830-1900).
Giuliano casou-se com Giusepha Carnevalli Bertolucci Manzoli e tiveram
seis filhos. O quarto chamava-se Giuseppe Vitorio Manzoli (1868-1947)
Em Poggio Rusco – Mantova It Giuseppe conheceu Maria, filha de
Ângelo Bassoli e Elena Cantoni Bassoli e casaram-se em 27 de abril de 1893 na
“Parrocchia Del S. Nome de Maria” em Poggio Rusco – Mantova.
Em 15/05/1896 tiveram o primeiro filho que lhe deram o nome de Federico
Manzoli e em 25/08/1897 o segundo e lhe deram o nome de Osiride Manzoli.
Para dar uma ligeira visão da situação social da Itália no Século
Dezenove, colocamos aqui a resposta de um italiano a um Ministro de Estado de
seu País, a propósito das razões que estavam ditando a emigração em massa
“Que coisa entendeis por uma Nação, Senhor
Ministro?
É a massa dos infelizes?
Plantamos e ceifamos o trigo, mas nunca provamos
pão branco.
Cultivamos a videira, mas não bebemos o vinho.
Criamos animais, mas não comemos carne.
Apesar disso, vós nos aconselhais a não
abandonarmos a nossa Pátria?
Mas é uma Pátria a terra em que não se consegue
viver do próprio trabalho?”
Nesse contexto, Giuliano, seu filho Giuseppe e suas
esposas decidiram mudar-se para o Brasil e empreenderam essa viagem a partir do
Porto de Gênova em 31/10/1898.
No passaporte de Giuliano Manzoli, emitido na Provincia de Mantova e
liberado em out/1898, consta o seguinte:
“O
Ministro de Assuntos Estrangeiros solicita às autoridades Civis e Militares de
Sua Majestade e das Forças Aliadas deixarem passar livremente
Manzoli
Giuliano filho de Carlo que vai para São Paulo, Brasil com sua esposa
Carnevalle Giusepha com 57 anos.”
No passaporte de Giuseppe Manzoli, emitido na Provincia de Mantova e
liberado em out/1898, consta o seguinte:
“O
Ministro de Assuntos Estrangeiros solicita às autoridades Civis e Militares de
Sua Majestade e das Forças Aliadas deixarem passar livremente
Manzoli
Giuseppe filho de Giuliano que vai para São Paulo, Brasil com sua esposa Basoli
Maria com 24 anos e os filhos Federico com 2 anos e Oziride com 1 ano.”
A viagem foi feita no navio chamado “Minas”. Saiu de Gênova, It em
31/10/1898 e chegou ao Brasil (Santos-SP) em 22/11/1898.
Maria estava, na viagem, gestante de Isac que viria a nascer em
11/04/1899, portanto, cinco meses da chegada ao Brasil.
A família chefiada por Giuliano foi encaminhada para a região de
Araraquara (SP) e ficou radicada na cidade de Boa Esperança do Sul – SP.
A nota triste dessa aventura foi a morte de Giuliano Martino Manzoli em
9/2/1900, pouco mais de um ano da chegada ao Brasil.
Em 10/09/1900 nasceu o quarto filho do casal Giuseppe e Maria que
recebeu o nome de Juliano em homenagem ao recém-finado avô.
Em Boa Esperança do Sul nasceram mais os filhos:
Ângelo Manzoli em 28/10/1902;
Eugênio Manzoli em 01/09/1904;
Ferdinando Manzoli em 08/05/1906;
Elena Manzoli em 25/08/1907;
Irma Manzoli em 02/10/1909;
Remo Manzoli em 01/07/1911;
Mário Manzoli em 24/04/1913 que faleceu em 1914; e
Rômulo Manzoli em 26/03/1916.
Federico, aliás, Frederico, casou-se com Catharina Bonato de Boa
Esperança do Sul e foram morar e criar seus filhos Irineu Armando, Valter,
Waldir, Milton e Rubens em Araraquara (SP). Viveu até 04/04/1983.
Osiride, aliás, Oziride, casou-se com a filha de seu patrão, Henriqueta
Bertolucci de Bonfim Paulista, em Araraquara onde nasceu a primogênita Anilde
Aparecida. Mudaram-se para Pedra Branca SP onde nasceu o segundo filho: Hellio.
Mudaram-se para o Parque Industrial de Matão (Toriba) onde nasceu o terceiro
filho: Wilson. Em Araraquara nasceu a filha Dirce. Mudaram-se para Jacaúna SP
onde nasceu o filho Orlindo. Retornaram para Araraquara onde nasceram os
filhos: Yvonne, Ozíride Filho (eu) e Cleide. Em 1941 mudaram-se para
Tabatinga SP de onde retornaram para Araraquara em 1949. Viveu até 08/12/1986
Isac permaneceu solteiro e trabalhando como pedreiro com seu pai e
irmãos. Mudou-se para São Paulo e sempre que podia visitava Araraquara. Faleceu
em Araraquara com câncer no fígado em 23/10/1961.
Juliano casou-se com Santina Ferrari de Boa Esperança do Sul e
foram morar e criar seus filhos Carlos José (Carlito); Geraldo; Reinaldo,
Nelson e Maria Aparecida em Dobrada SP. Viveu até o início do ano 1960.
Ângelo casou-se com Felícia Billi de Pirassununga SP, teve quase todos
seus filhos nascidos no Estado de São Paulo, nas imediações de Araraquara. Seu
Salvo-Conduto foi emitido pela Delegacia de Polícia de Matão (SP). Sua filha
Cezira nasceu e foi batizada em Tabatinga SP em 16/06/1934. Mudou-se para o
Paraná para onde foi criar seus filhos: Silvio, Diva, Deolinda, Cezira, Marina,
Maria, Cecilia, Donato, Antonio e Aparecido. Viveu até 08/03/1995.
Eugênio casou-se com Amélia Bonato de Boa Esperança do Sul (cunhada de
Frederico Manzoli) e foram morar e criar seus filhos Ítalo, Hercília, Hercídio,
Oswaldo, Eunice, Ítalo e Eduardo Armando em Olímpia SP, com casa comercial de
tecidos e armarinhos no centro da cidade com o nome de “Casa Manzoli”. Viveu
até 14/04/1999
Ferdinando casou-se com Felícia Diana, de Sertãozinho SP e foram morar e
criar seus filhos Clarice, Lourdes, José, Luiz, Claudina e Cláudio em São Paulo
SP. Viveu até 06/07/1958.
Elena casou-se com Maurício Carpigiani e foram morar e criar suas filhas
Alzira, Elza e Esther em São Paulo SP.Viveu até 07/12/2001.
Irma casou-se com Antonio Diana de Sertãozinho SP e foram morar e criar
seus filhos Abner, Orlando, Ilda, Antonio, Zineide e Zinedir em São Paulo SP.
Remo casou-se com Alzira de Angelis, de Santa Maria da Serra SP e foram
morar e criar seus filhos José, Renato, Maria, Eugênio, Rene, Reinice e Lenira
em São Paulo SP.Viveu até 23/12/1999.
Rômulo casou-se com Joventina Sigo e foram morar e criar seus filhos
Sérgio, Vilma, Roberto e Wagner em São Paulo SP. Existe registro de inscrição
de firmas comerciais da Comarca de Pederneiras SP em nome de Rômulo Manzoli
com data de 20/08/1940.
O casal Maria e Giuseppe mudaram-se para São Paulo SP, Vila Carrão, onde
viveram ainda muitos anos de suas vidas. Giuseppe faleceu em 30/04/1947 com 79
anos de idade e Maria em 05/05/1968 com 94 anos de idade. Lembro-me da visita
da “Noninha” – como a chamávamos – a Araraquara onde presenteou-nos com sua
presença por mais de semana. Foi muito agradável, passava os dias fazendo meias
de lã com pontos de tricô com três ou quatro agulhas, não me lembro.

Osíride, Eugênio, Ângelo, Juliano,
Isac, Frederico, Ferdinando, Elena, Rômulo, Maria Bassoli Manzoli, Giusepha
Carnevalli Bertolucci Manzoli, Giuseppe Manzoli, Remo e Irma.
sexta-feira, 11 de maio de 2018
Somos bons?
Essa é uma questão essencialmente filosófica que
surge em terapia depois que o paciente começa a questionar o modelo do fazer, sua educação
anterior e a natureza do bem e do mal. A maioria das pessoas passa a vida
pensando que não presta, que precisa ser punida, controlada ou reprimida porque sua verdadeira natureza é baixa e maligna.
Uma escola de pensamento define o homem como essencialmente mau. Com base
nessa filosofia, nasceu a necessidade de poder e controle para que
instituições como a Igreja e o Estado dominassem as massas. Essas
instituições usam a punição e a disciplina férrea para manter a
ordem, amedrontar e subjugar, impedindo que se espalhem as sementes
de nossa "maldade" inerente. Essa linha de pensamento acredita que o
homem não consegue tomar decisões e que é preciso uma liderança forte
(ditadura) para manter as massas no rumo "certo" (O Senhor das Moscas, de William Golding, é um romance assustador
baseado nessa crença filosófica).
A escola filosófica
oposta prefere acreditar na bondade inerente do homem e na premissa de que,
quando tem escolha, ele tende a fazer o bem mesmo que isso seja mais difícil e
complicado.
O paradoxo dessa escolha é o fato de que, embora a opção pela bondade não seja a
mais simples, seu resultado é uma vida "mais fácil". Muitas vezes,
optar pelo bem não parece certo, ao passo que a escolha mais fácil pode parecer
inicialmente melhor, mas resultar em uma forma de maldade. Um exemplo perfeito
desse paradoxo
é o conceito de zelo. Nosso modelo do fazer define todo comportamento zeloso como bom, o que nem
sempre é verdade. Quem precisa de cuidados
não consegue manter-se no controle da própria
vida. A escolha da bondade, portanto, e o controle sobre essa escolha pertencem a quem dá, e não a quem recebe
cuidado, o que é o oposto da intenção. Pode haver uma forma de maldade quando a pessoa que cuida recebe todo o crédito pelo ato
e não permite que o alvo de seus cuidados tenha nenhum poder nem controle sobre as conseqüências. Nesse caso, a opção por
não cuidar pode ser "melhor",
mas não será a mais fácil. Escolha envolve aprendizado e prática. A
prática da bondade é um processo de tentativa e erro.
Você é bom! Você pode escolher entre praticar ou não a
bondade. Pode assumir a responsabilidade por sua vida e seus atos. Pode tomar conta
de si mesmo. Você pode acreditar em sua bondade e na bondade alheia. Dessa
forma, pode tornar-se um exemplo de bondade.
(Suzana McMahon – O Terapeuta
de Bolso)
sexta-feira, 27 de abril de 2018
Mãe, posso dormir na casa da vó hoje?
Escutei dentro do ônibus hoje de manhã.
Quando consegui me virar para ver a criança que me fez voltar ao passado apenas com uma frase, ela já não estava mais ao alcance dos meus olhos. Viajei longe.
Quando foi que o tempo passou e nos fez adultos cheio de prioridades chatas?
Lutamos todos os dias por alguma coisa que não sabemos se é o que realmente queremos, quando na verdade, casa de vó é o que todo mundo precisaria pra ser feliz.
Casa de vó é onde os ponteiros do relógio tiram férias junto com a gente e passam os minutos sem pressa de chegada.
Casa de vó é onde uma simples macarronada e um pão caseiro ganham sabores diferentes, deliciosos.
Casa de vó é onde uma inocente tarde pode durar uma eternidade de brincadeiras e fantasias.
Casa de vó é onde os armários escondem roupas antigas e ferramentas misteriosas.
Casa de vó é onde as caixas fechadas se tornam baús de tesouros secretos, prontos para serem desvendados.
Casa de vó é onde os brinquedos raramente surgem prontos, são todos inventados na hora.
Casa de vó tudo é misteriosamente possível de acontecer. Mágico. Sem preocupações.
Casa de vó é onde a gente encontra os restos da infância dos nossos pais e o início de nossas vidas.
Casa de vó, só mesmo lá dentro, no endereço do nosso afeto mais profundo, tudo é permitido.
Esse luxo não pode me pertencer mais - infelizmente - viverá comigo apenas nas mais bonitas recordações.
Mesmo assim se eu pudesse fazer um pedido agora, qualquer pedido, de todos os pedidos do mundo eu iria pedir a mesma coisa.
Posso dormir na casa da vó hoje?
(Autor desconhecido)
Escutei dentro do ônibus hoje de manhã.
Quando consegui me virar para ver a criança que me fez voltar ao passado apenas com uma frase, ela já não estava mais ao alcance dos meus olhos. Viajei longe.
Quando foi que o tempo passou e nos fez adultos cheio de prioridades chatas?
Lutamos todos os dias por alguma coisa que não sabemos se é o que realmente queremos, quando na verdade, casa de vó é o que todo mundo precisaria pra ser feliz.
Casa de vó é onde os ponteiros do relógio tiram férias junto com a gente e passam os minutos sem pressa de chegada.
Casa de vó é onde uma simples macarronada e um pão caseiro ganham sabores diferentes, deliciosos.
Casa de vó é onde uma inocente tarde pode durar uma eternidade de brincadeiras e fantasias.
Casa de vó é onde os armários escondem roupas antigas e ferramentas misteriosas.
Casa de vó é onde as caixas fechadas se tornam baús de tesouros secretos, prontos para serem desvendados.
Casa de vó é onde os brinquedos raramente surgem prontos, são todos inventados na hora.
Casa de vó tudo é misteriosamente possível de acontecer. Mágico. Sem preocupações.
Casa de vó é onde a gente encontra os restos da infância dos nossos pais e o início de nossas vidas.
Casa de vó, só mesmo lá dentro, no endereço do nosso afeto mais profundo, tudo é permitido.
Esse luxo não pode me pertencer mais - infelizmente - viverá comigo apenas nas mais bonitas recordações.
Mesmo assim se eu pudesse fazer um pedido agora, qualquer pedido, de todos os pedidos do mundo eu iria pedir a mesma coisa.
Posso dormir na casa da vó hoje?
(Autor desconhecido)
quinta-feira, 5 de abril de 2018
Antepassado
Só te conheço de retrato,
não te conheço de verdade,
mas teu sangue bole em meu sangue
e sem saber te vivo em mim
e sem saber vou copiando
tuas imprevistas maneiras,
mais do que isso: teu fremente
modo de ser, enclausurado
entre ferros de conveniência
ou aranhóis de burguesia,
vou descobrindo o que me deste
sem saber que o davas, na líquida
transmissão de taras e dons,
vou te compreendendo, somente
de esmerilar em teu retrato
o que a pacatez de um retrato
ou o seu vago negativo,
nele implícito e reticente,
filtra de um homem; sua face
oculta de si mesmo; impulso
primitivo; paixão insone
e mais trevosas intenções
que jamais assumiram ato
nem mesmo sombra de palavra,
mas ficaram dentro de ti
cozinhadas em lenha surda.
Acabei descobrindo tudo
que teus papéis não confessaram
nem a memória de família
transmitiu como fato histórico
e agora te conheço mais
do que a mim próprio me conheço,
pois sou teu vaso e transcendência,
teu duende mal encarnado.
Refaço os gestos que o retrato
não pode ter, aqueles gestos
que ficaram em ti à espera
de tardia repetição,
e tão meus eles se tornaram,
tão aderentes ao meu ser
que suponho tu os copiaste
de mim antes que eu os fizesse,
e furtando-me a iniciativa,
meu ladrão, roubaste-me o espírito.
não te conheço de verdade,
mas teu sangue bole em meu sangue
e sem saber te vivo em mim
e sem saber vou copiando
tuas imprevistas maneiras,
mais do que isso: teu fremente
modo de ser, enclausurado
entre ferros de conveniência
ou aranhóis de burguesia,
vou descobrindo o que me deste
sem saber que o davas, na líquida
transmissão de taras e dons,
vou te compreendendo, somente
de esmerilar em teu retrato
o que a pacatez de um retrato
ou o seu vago negativo,
nele implícito e reticente,
filtra de um homem; sua face
oculta de si mesmo; impulso
primitivo; paixão insone
e mais trevosas intenções
que jamais assumiram ato
nem mesmo sombra de palavra,
mas ficaram dentro de ti
cozinhadas em lenha surda.
Acabei descobrindo tudo
que teus papéis não confessaram
nem a memória de família
transmitiu como fato histórico
e agora te conheço mais
do que a mim próprio me conheço,
pois sou teu vaso e transcendência,
teu duende mal encarnado.
Refaço os gestos que o retrato
não pode ter, aqueles gestos
que ficaram em ti à espera
de tardia repetição,
e tão meus eles se tornaram,
tão aderentes ao meu ser
que suponho tu os copiaste
de mim antes que eu os fizesse,
e furtando-me a iniciativa,
meu ladrão, roubaste-me o espírito.
Poema de Carlos Drummond de Andrade
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